A República no Brasil foi, desde o início, um projeto articulado por uma elite intelectual, com forte influência da maçonaria. O primeiro registro significativo do republicanismo organizado data de 3 de dezembro de 1870, com a publicação do Manifesto Republicano, lançado pelo Clube Republicano do Rio de Janeiro. Esse documento foi elaborado por figuras proeminentes da maçonaria, como Quintino Bocaiúva, Joaquim Saldanha Marinho (mestre do Grande Oriente do Brasil) e Salvador de Mendonça, entre outros signatários dissidentes do Partido Liberal.


Inicialmente, o movimento era restrito a uma minoria intelectual e não contava com amplo apoio popular. O republicanismo só ganhou força significativa a partir de 1888, após a abolição da escravatura (Lei Áurea, 13 de maio de 1888). Muitos ex-senhores de escravos, descontentes com a medida imperial e temendo perdas econômicas sem compensação, aderiram ao movimento republicano como forma de oposição à monarquia.
A maçonaria posicionou o marechal Manuel Deodoro da Fonseca como figura de proa. Deodoro, que concentrava o descontentamento militar contra o governo imperial, foi elevado a grão-mestre honorário, embora haja debates sobre sua iniciação plena e conhecimento dos objetivos mais profundos da organização, como observado por historiadores como Joaquim Felício dos Santos em suas memórias e análises da época. A maçonaria manteve suas estruturas em alerta, aguardando o momento oportuno para agir.
A monarquia já se encontrava enfraquecida por fatores como a Questão Militar, a insatisfação dos cafeicultores paulistas, o abolicionismo sem indenização e a saúde frágil de Dom Pedro II. Bastava um empurrão decisivo. Esse veio da articulação entre positivistas e maçons, com Benjamin Constant Botelho de Magalhães atuando como principal conselheiro e "oráculo" do movimento junto a Deodoro. Assim, em 15 de novembro de 1889, ocorreu o golpe que depôs o gabinete do Visconde de Ouro Preto e, em seguida, proclamou a República.

A respeito do marechal Deodoro da Fonseca
É amplamente documentado que Deodoro nunca foi um republicano convicto. Suas cartas ao sobrinho Clodoaldo da Fonseca revelam seu apoio firme à monarquia constitucional. Nela, ele escreveu textualmente:
“República no Brasil é coisa impossível, porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal educados para serem republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela.”
Deodoro via a monarquia como o pilar da estabilidade nacional, apesar de suas falhas.
No dia 15 de novembro de 1889, o objetivo inicial de Deodoro não era derrubar o Império, apenas depor o gabinete de Ouro Preto, alvo de forte oposição militar e civil. Relatos da época indicam que, ao marchar com as tropas pelo Rio de Janeiro, Deodoro teria gritado “Viva o Imperador!” (ou “Viva Sua Majestade, o Imperador!”) diante dos soldados. Após a ação, adoentado (sofrendo de graves problemas respiratórios), retornou para casa e descansou, convencido de que realizara apenas uma intervenção militar limitada.
O que transformou o episódio em proclamação da República foi um fator pessoal agravado por desinformação. Dom Pedro II, ao tentar formar novo ministério, considerou nomear o senador gaúcho Gaspar Silveira Martins como chefe de gabinete. Silveira Martins era inimigo declarado de Deodoro há anos, desde disputas no Rio Grande do Sul, incluindo uma curiosa rivalidade amorosa pela mesma mulher, Maria Adelaide Andrade Neves Meirelles (a baronesa de Triunfo). A notícia exagerada pelos jornais repúblicanos de que Silveira Martins assumiria o poder enfureceu Deodoro, que se sentiu pessoalmente ultrajado e temeu retaliações. Pressionado pelos republicanos positivistas (especialmente Benjamin Constant), ele cedeu e, na madrugada de 16 de novembro, assinou o decreto instituindo o governo provisório republicano.
